O trem de Doido - Crônicas

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      19 Apr 2012

      Quem é Robin?

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      Lembram no “De volta para o Futuro”, quando o Marty McFly começa a olhar pra foto dele e notar que está sumindo? Então, Marty estava começando a desaparecer. A partir dali, ninguém mais poderia dizer nada sobre ele, seria um desconhecido. Dia desses eu notei que a mesma coisa acontece com o Robin. Se quando você leu esse nome identificou que falamos do parceiro do Batman, pode continuar a ler. Se não reconheceu, vai achar estranho o texto.

      Tudo começou com as piadinhas. Um cara mais velho andando por aí com um adolescente. Os dois vestindo fantasias. Um de morcego e o outro uma roupa estranha – alguém sabe a origem? - com uma sunga de escamas e uma camisa pólo abotoada até o gogó. O pessoal começou a questionar a masculinidade do Batman.

      Mas não sei quando começaram a questionar isso. Acho até curioso, porque se na década de 60 as coisas eram mais reprimidas e os gays teoricamente tinham mais problemas, na época o Robin andava por aí, aparecia nos gibis e no famoso seriado da TV.

      Quando eu era moleque, na década de 80, o Robin também estava lá. E não me lembro de nenhum comentário sobre uma estranha relação entre os dois e nem mesmo ninguém gostava menos do Batman porque havia o ajudante.

      A coisa começou a desandar de vez de uns 20 anos pra cá, com os filmes. Acho que algum figurinista deve ter achado horrível a sunga verde do Robin. O fato é que se o Batman tem a roupa preta, uma máscara com traços fortes e um perfil dark, o Robin parece mais os personagens que ficaram no passado. Com sua roupinha colorida, sua máscara que só tapa os olhos e seu lado engraçado: a voz de menino que colocava “santa” em toda exclamação.

      É coisa demais. Nosso tempo não aceita tudo isso. Um menino parceiro de aventuras de um adulto, todo mundo sempre vai desconfiar. Além de tudo, o Batman hoje tem de ser um cara solitário de dar dó. Talvez um dia desses alguém divulgue aí que o Robin vai voltar em algum filme. Certamente colocarão o moleque mais revoltado, com uma roupa diferente. Mas por enquanto, deve demorar.

      Pra vocês terem ideia de quanto Robin está sendo excluído, o Christian Bale, o atual Batman dos cinemas, disse recentemente que sai do projeto se inventarem de colocar um Robin. Santa perseguição!

      Além disso, dia desses, eu tive a prova de que realmente o Robin está sumindo. Fiz uma matéria sobre os super-heróis preferidos da molecada. Quando perguntei a um garoto de 8 anos, fanzaço do Batman, se ele também gostava do Robin, ouvi: quem é Robin?

      É bom lembrar que em 1990 uma banda de dance music brasileira se perguntava “Que fim levou o Robin?”. A letra sofrível tenta decifrar por onde o ajudante do Batman: “Santa interrogação, onde será que ele foi? Será que ele sumiu ou será que assumiu? Ele foi abandonado e seu coração partiu, E agora trabalha no Mc Donald's do Brasil?”.

      Com a exclusão de Robin dos filmes e gibis, a pergunta da então “moderna banda de dance music brasileira” continua valendo.

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      16 Jul 2011

      Bodão e a catraca

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      A catraca impenou justamente quando o Bodão passava. Todo mundo já começou a uivar: seu gordo. Bodão riu de lado, sem dentes e falou pra moça, a atendente: libera aí, minha fía (com o jeito macaco dele). A mulher olhou meio puta mas se controlou porque, afinal, era o trabalho dela. “Não dá”, disse. “Emperrou”. A fila atrás do Bodão se agitava. Agora, além dos toscões, até os grupos de casais saiam de seu mundo e se manifestavam: “ih, o gordo emperrou”, um cara vestindo camisa pólo com emblema de um time de pólo comentou. “Ou, faz favor, moça, me tira daqui aí”, solicitou Bodão. A moça chamou outro atendente. Na fila alguém já falava: “ou vamo aí, quando eu entrar o filme já vai ter começado”. 

      Como se a cena principal do filme estivesse do lado de fora do cinema, uma câmera em travelling corria a fila, captando cada um dos comentários. Bodão suava e ouvia cada uma das tiradas de onda com a sua cara, com a sua barriga. Um microfone captava tudo e jogava dentro da cabeçona do Bodão. Ele suava. “Gordo é foda”, “Puta, lá vem a baleia atrapalhar nosso cinema”, “preocupa não, o trailer é grande”, “saco”, “chama um guincho”. Para. A câmera sai agora de dentro dos olhos do Bodão, rápida. Ele grita. “Vá se fuder!” E chora feito um meninão que perdeu o doce. A atendente se descontrola, ri alto. Esnoba a existência do gordinho. O outro consegue. “Aqui ó, tava travado, era por causa do gor...não, do tamanho dele não, gente, peraí...”.

      Bodão entra, senta e saboreia com raiva uma bala diet que comprou na entrada. Como nunca antes na vida, teve a certeza de que não vale a pena trocar nada por um mega-hiper pacotão de pipoca de cinema.

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      20 Jun 2011

      O bolo da Dona Zezé

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      Duas ou três colheres de um ingrediente a mais podem fazer um estrago danado em um bolo. Dona Zezé sabia que naquele dia tinha feito um dos piores bolos de sua vida. Trinta anos de bar e mercearia nas costas não era pouca coisa. As duas portas serviam também de lanchonete pros moleques que saiam da Escola Estadual Afonso Arinos, no bairro da minha cidade. Depois da aula e antes do almoço era tempo de comer um quadrado de 10 por 10 centrímetros de doce de leite de duas cores, uma mais clarinha e a outra morena. O doce era um dos doces mais doces, mais doce impossível de tão doce. Repito tanto a palavra doce pra dar uma idéia da docitude desse doce de doce de leite. Doce mesmo! Doce. E eu chegava em casa e bebia um copo de água pra tentar tirar o doce da língua. Minha mãe já me esperava pro almoço com panelas fumegantes e sem tempo pra um moleque cheio de tempo. O resto do dia pra gastar a toa. Jogar Atari, Enduro e Hero. Depois jogar botão sozinho e quando os amigos chegassem, fazer um campeonato. Eu tinha e ainda tenho guardado um time do Flamengo. Era especial, daqueles de acrílico. Eu mesmo tinha colado o distintivo do Mengão, que veio um dia na revista Placar. Aliás, na minha coleção dava pra disputar um campeonato em cada país diferente, dava pra ficar a semana inteira jogando. Era a minha Fifa. Pra jogar com o meu time especial, eu tinha uma palheta amarela. Escolhida depois de muito esmero. Ela não era das moles, era mais espessa e por isso não entortava com facilidade, assim, eu tinha de compensar e tirar a força na hora de jogar os botões. Habilidade pura. Cada um se especializa em fazer certas coisas. O homem é mesmo um macaco esperto. Mas há uma diferença, o talento. Com prática os medíocres aprendem. Com prática e talento, os geniais criam. Assim Dona Zezé era considerada. Uma mulher genial na hora de colcoar a mão na massa. Na massa de pão, de bolo e de biscoito. Mas aquele dia ela errou a mão. Tudo começou com um telefonema da sua nora. Aninha era boa menina. Mesmo as previsões mais catastróficas de Dona Zezé estavam erradas. "Tão pequena, tão magrelinha, parece uma galinha seca. Mulher assim não presta, quer tudo na mão. Num tem tutano", dizia. Com o tempo, se enganou. O fato era que Aninha contava uma notícia besta pra ela e pro mundo. Pra Dona Zezé era equivalente a um terremoto. Diga-se, um abalo sísmico atingindo apenas uma casa na vila, na cidade, em um povoado qualquer. Aninha avisava: "Domingo o almoço é aqui Dona Zezé", intimou. Antes desse casamento, o dia era reservado pra mesa de panelas fulmegantes da Dona Zezé. Ela sabia o que os três filhos gostavam de comer. Comida predileta é a da mãe e não me venha com desfeita! Até acho que a expressão "cuspir no prato que comeu" foi dita pela primeira vez por uma mãe desiludida com a frágil empolgação do filho pra um prato feito pela nora. Pois é, assim se fez com Dona Zezé. "Aprendi a fazer a lasanha de panqueca que o Luiz tanto gosta!", empolgava Aninha. Peraí, era como se alguém jogasse com o meu time especial de botão do Flamengo. "E eu fiz do jeito que a senhora faz!", completou a nora. Putz, aí era como se ainda tivesse jogado com minha palheta. A velha engoliu seco. Daí pra diante o fim da conversa nem prestou atenção. Mal desligou o telefone e Seu Chico, seu marido, já pediu qualquer coisa, coisa pequena e levou um esfrega. Saiu resmungando "credo, muiê doida, sô". Nesse dia não tinha doce mais doce dos doces. Tinha um bolo de chocolate. A cara dele era bonita com a cobertura brilhando de tão preta. O dinheiro dava e resolvi comprar. À tarde tinha rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol de botão da molecada da rua Francisco Sales. Não fosse por uma diarréia de contorcer o espírito e arrepiar o corpo eu poderia ter ganho. Mas aquele dia alguma coisa passou da conta. Exagerei na comida. Depois do almoço ainda comi doce de compota de goiaba. Com requeijão mole. Bom, pelo menos foi isso que respondi quando minha mãe perguntou o que "será que você comeu que te fez mal?". Ela mal sabia que a culpa era da Aninha, nora da Dona Zezé, mulher do Seu Chico, pai do Luiz seu filho e marido da Aninha.

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      24 Jan 2011

      A cidade desconhecida e a cidade original

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      Eu via árvores que sobreviveram nos campos já escassos de árvores do cerrado, nas minhas idas e vindas pelas estradas do Brasil Central. Eram poucas árvores. Eu tentava dormir. Eu também ouvia as mesmas músicas em 10 anos de estrada. Preservava o costume porque as músicas funcionavam, aquelas mesmas cancões conseguiam aliviar o tédio. Eu via também um encosto de cabeça do banco da frente. Eu imaginava se eles tiravam aquilo pra lavar. De quanto em quanto tempo lavavam? Eu lia o anúncio de um posto de gasolina em Bady Bassit.

      Bady Bassit. Eu sempre tentava entender como se pronunciava o nome dessa cidade do interior de São Paulo. Eu imaginava como chamam quem nasce por lá. É um nome curioso. Quando eu lia o nome da cidade e fechava os olhos pra dormir, em poucos segundos, imaginava uma cidade pequena, pacata e florida.

      Quando eu pegava o ônibus, eu deixava minha cidade, que foi um pedaço de terra encotrado no Sertão da Farinha Podre, um lugar cercado por dois grandes rios. Uma região que já foi chamada de Entre rios e também de Desemboque. Quando minha cidade nasceu, foi chamada de São Pedro de Uberabinha. Virou Uberlândia.

      O que seria da minha cidade se ela ainda se chamasse São Pedro? Não sei. Só sei que seria um nome bem mais bonito do que o atual. São Pedro seria um nome que renderia homenagem à fé das famílias que resolveram morar ali. Começaram tudo do zero. De alguma maneira, o nome atual - terra fertil - é aquilo que os moradores que herdaram o local desejavam: crescer, enriquecer.

      Cidades deveriam permanecer com o nome original. Geralmente, esse nome nasce da primeira impressão, das primeiras histórias. Depois um vereador resolve puxar o saco de alguém, ou então resolve criar a falsa impressão de que todas as mazelas vão acabar, começando tudo de novo. E com um novo nome. Geralmente, uma ideia sem alma, fria. Um decreto.

      Hoje eu resolvi buscar Bady Bassit no Google. O nome foi sugestão de um político para homenagear a outro. Descobri que, vejam só, até então, Bady Bassit se chamava Borboleta. Um nome realmente bonito. Um nome que justificava a imagem que eu tinha da cidade desconhecida.

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      17 Jan 2011

      Levando a vida desconfiado

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      Quando eu era moleque, me lembro que algo rolava no ar quando minha mãe anunciava: vou sair. Pairava a possibilidade de poder fazer alguma coisa que ela não gostasse, como ouvir música no volume máximo (incrível como aqueles 3x1 de antigamente tinham bem mais potência do que os aprelhos de hoje) ou passar trote telefônico (o preferido era o da Rádio Ituiutabana, mas isso vale outro texto). O fato é que quando ela fechava o portão e dobrava a esquina, era a hora de fazer alguma coisa só possível com a ausência dela. Será que ela sabia? Será que ela desconfiava? Depois vou perguntar.  

      Hoje eu consigo imaginar como minha mãe se sentia quando virava as costas para nossa casa. Eu sinto isso quando deixo o carro no lava a jato. Sempre saio andando e pensando qual é a merda que esse sujeito vai aprontar? Deu pra notar que ele não fez uma cara confiável quando pegou a chave do carro. "Tudo certinho, patrão. Pode deixar, vai ficar limpinho". Quando o cara do lava a jato faz gracinha, aí é que desconfio mais ainda.

      Em estacionamentos, quando sou obrigado a deixar a chave do carro, também penso que vou ser enganado, que vão arranhar o carro ou, no mínimo, soltar um pum lá dentro. O filme "Curtindo a vida adoidado" contribuiu para essa minha neura de estacionamentos. A cena em que Ferris Bueller sai tranquilo do estacionamento e, ao mesmo tempo, dois garageiros arrancam com a Ferrari do pai do Cameron Frye, é recorrente todas as vezes que deixo uma garagem. E olha que tenho um carro popular. Mas "tá pago" e "tá limpinho", como estampam aqueles adesivos.

      O fato é que no comércio, normalmente, sou atacado pelo espírito desconfiado. Sempre fica uma impressão de que o vendedor está se livrando do produto, como se pensasse: "ufa, esse cara tá levando esse lixo, beleza", ou ainda, "se ele soubesse que por aí dá pra achar mais barato...". Fico intranquilo até quando a pechincha é grande. Eu sei que estou pagando barato e por isso mesmo fico com a impressão de que aquele botão de liga/desliga vai sair na minha mão na primeira vez que usar o produto.

      Já pensei em começar a usar da sinceridade total com os vendedores, atendentes e lavadores de carro. Pode ser uma forma de pressionar o sujeito. Mostrar que você está de olho aberto. Mas sempre achei meio bobo quem tenta passar uma imagem de espertão. Enfim, em 99% das vezes, eu é que estou errado. O lavador não deixou de passar cera no carro e o produto pechincha funciona direitinho. Das outras vezes, quando noto alguma coisa estranha, até cobro, reclamo. Minha mãe também fazia assim. Não adiantava muito. Por isso mesmo eu sei, vão tentar me enganar de novo e de novo.  

       

       

       

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      30 Dec 2010

      A complexa arte de tomar banho e/ou O Sabonetol

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      Antes de entrar, preguiça. Às vezes, pressa. E, em outras horas, necessidade mesmo. Tomar banho é assim. Não sei pra vocês, mas não gosto daqueles dois primeiros segundos do contato que tenho com a água. No terceiro segundo o negócio começa a ficar bom. No quarto, já é relax total. Depois de curtir um zen-banhismo eu parto pra lavação, que é a finalidade daquilo ali. Começo pela juba. Uso xampu. Depois de dar uma conferida entre os dedos pra ver quantos fios de cabelo perdi e se a calvíce entrou em ação, é a vez do ensaboamento. E aí, meus caros, é que entra o motivo de tanta escrevinhação óbvia e ululante.

      Tão simples, banal e tranquilo como essa introdução acima, é o banho. Nada pode estragar esse momento. Nem mesmo um telefone que toca (“eu digo alô, sem resposta” - lembrei daquela música, desculpem). Uma campainha. Isso tudo pode ficar pra depois. Calma. A gente já é bem crescidinho pra saber que tudo que é bom tem seus perrengues. E, no banho, nada pode ser tão angustiante quanto se deparar com um sabonete no final.

      Um sabonete pequeno perde todo os seus poderes, seja a capacidade de criar espuma ou de oferecer aquele cheiro agradável pós-banho. Um sabonete no final exige também um esforço maior de movimentos braçais. Exige ainda uma maior concentração e força com os dedos e a mão. Afinal, catar sabonete no chão, mesmo que nem seja em presídios de filmes de Hollywood, é bem chato. E quando o sabonete pequeno parte ao meio, então? Ah, pra mim, acabou o banho. Azedou.

      Pensando nesse dilema do banhista, eu imaginei um sistema de banho 'roll on'. Não sei se já existe, mas se não existir, vou patentear. Consiste em um receptáculo oval, com o formato de um sabonete mesmo. De plástico. Você vai poder abri-lo, e colocar lá dentro o sabonete líquido de sua preferência. Quando passar o "sabonetol" (ainda não inventei o nome comercial) na pele, o líquido vai sair e será como um sabonete de verdade. Mas sem diminuir de tamanho. Sem partir ao meio! O prazer de se esfregar com o sabonete está salvo. Nada mais poderá estragar seu banho. Quer dizer, a não ser que você tenha esquecido a toalha lá no quarto.

      Sabonetol

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      16 Dec 2010

      Um pedaço de pizza por um clique

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      Lá no tempo do ronca os escambos eram só de coisas essenciais. Um peixe por um milho. Leite por arroz. Um cesto de palha por uma roupa de lã de carneiro. Sei lá. Depois inventaram o dinheiro. A lógica deveria permanecer a mesma. Mas as pessoas começaram a comprar coisas porque simplesmente queriam ter aquilo e tinham dinheiro pra comprar. Essa frágil introdução histórica serve só pra matutar sobre um troço do consumismo que me irrita. O fato é que depois de algumas semanas já enchi o saco de receber emails de sites de compras coletivas e de tickets de compra. Nunca comprei e já me arrependi completamente de ter me cadastrado.

      Eu tenho preguiça de consumismo. É como se um pecado boicotasse o outro. Você pode achar estranho, mas o que mais me motiva a gastar dinheiro é a necessidade de ter o produto. E 99% dos anúncios que me chegaram são de coisas inúteis. Eu não preciso de comida japonesa e nem gosto. Mas eu gosto de pizza. Só que prefiro poder escolher a hora de ir lá comer um bons 4 pedaços. E importante: eu vou pagar por isso quando me der vontade.

      O que motiva a gastar dinheiro é necessidade. Não quero comprar um vale pizza. Um vale cabelo ou um vale sorvete. O que eu vou fazer com isso tudo agora? “Ah, mais você compra mais barato agora e depois vai lá e come a pizza”. Mas eu não quero comprar agora. Tudo bem, eu sei, esses sites só fazem sucesso porque eles fisgam (ops) o cliente pelo prazer da compra, não pelo bem que o produto causa. Isso: tem muita gente que sente prazer em comprar. O prazer de comprar é maior do que um bom pedaço de pizza.

            

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      20 Nov 2010

      O jornalismo e a maça do MacDonald's

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      Há umas semanas eu participei de uma entrevista para um teste vocacional de uma garota pré-vestibulanda. Foi difícil não dizer claramente que jornalismo não prestava. Você, colega de profissão, pode achar que eu fui sacana. Pode achar que eu deveria ter dito com todas as letras: não entre nessa. Mas eu não disse. Não disse assim, feito um soco do Mike Tyson. E eu juro que pensei em dizer. Levar essa escolha pra lona logo no primeiro round. Mas quando eu fui falar com a garota, que me visitou em meu local de trabalho, bateu a constatação. Feito um primeiro golpe, um jab de esquerda no queixo, eu percebi: incoerência. Sim, como eu diria a ela pra pular desse barco se eu estou lá, feito um Leonardo di Caprio - o cabelo dele é um pouco mais claro - esperando o Titanic afundar? Que baita imbecil eu sou? Se a garota estava ali pra descobrir a vocação, eu me descobria em pleno processo de questionamento da minha desvocação, vamos chamar assim. Por que tanta decepção?

      Bem, lá se vão 10 anos desde a formatura. Lá se vão 10 anos desde aquela colação de grau feita em plena sala de aula com mais três colegas. Sim, eu não participei da colação com aquele vestidão. Ao final da faculdade, eu já não via motivos suficientes para comemorar. Tentei dizer isso à garota. Explicar a ela que não se escolhe uma profissão pelo curso. Não se escolhe porque gosta mais das matérias de humanas. Não se escolhe por eliminação. E não se escolhe porque simplesmente pegou a parte pelo todo, ou seja, não se escolhe porque simplesmente gosta de escrever. Não! Não faça isso. Pra escolher precisa saber se gosta de trabalhar sob pressão, se não liga em ganhar uma merreca, se não se importa em trabalhar nos feriados e finais de semana. Eu disse isso à menina. Eu disse tudo como quem publica uma matéria expondo a realidade e dá ao leitor a chance de interpretar do jeito que quiser. “É, já tava vendo que jornalismo não era uma boa”, ela disse ao final. Com toda a imparcialidade jornalística, pela reação, acho que ganhei essa luta por por pontos.

      Hoje fui ao MacDonalds almoçar. Fui comer aqueles sanduíches industrializados. Cheios de conservantes. Aquilo parece comida, mas a gente sabe que na verdade não é. Lá no balcão havia uma caixa cheia de maças. Sim, vende-se maças no MacDonalds. Elas estão lá. Grandes, alinhadas, vermelhas. Parecem com aquela maça que a bruxa deu pra Branca de neve. Eu me pergunto, por que alguém comeria uma maça no MacDonalds? É o lugar errado pra aquilo. Mas eles oferecem a maça. Deve ter gente que come a maça do MacDonalds depois de triturar uma promoção do Chedder. A maça do MacDonalds me fez pensar no jornalismo. Eu tenho comido a maça no MacDonalds durante 10 anos. E a maça do MacDonalds está ali no sacolão, no supermercado, na feira, no gavetão da minha geladeira. Mas mesmo assim eu vou até o MacDonalds comer maça. Insistir no jornalismo é comer maça no MacDonalds. É procurar no lugar errado. E insistir na procura.      

            

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      8 Nov 2010

      Sem título

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      A gente vive na era do sem. Todo mundo é sem alguma coisa. Bom, uma coisa todo mundo tem: a falta de algo. Existem  mais além dos sem terra, dos sem teto e dos sem comida. È fácil enumerá-los, tem sem emprego, sem salário, sem carro, sem moto, sem cabelo, sem beleza, enfim, a lista é longa e sem graça, sem fim e sem necessidade. O que eu acho mais engraçado disso tudo, é que lado a lado da necessidade existe a oferta. Capitalismo, meu caro (expressão fora de moda essa, não?). Dia desses eu assistia a um programa americano sobre pessoas americanas e sua busca por beleza. Uma espécie de ‘reality show’ em uma clínica de cirurgia plástica. Na prateleira do supermercado tá lá, tem todo tipo de comida gordurosa, bacon, sanduíches, refrigerantes. Tudo pra engordar o porco. Ao mesmo tempo, é oferecido o conserto do estrago. Clínicas de cirurgia plástica. È incrivelmente nojento assistir o sujeito socar um canudo na pança da gorda e sugar de lá banha, a mais gordurosa e adiposa banha. Depois ainda tem conserto de boca e conserto de bunda, com o chamado “brazilian lift” que nas palavras do médico iria deixar a tribufu com “os bumbuns das praias brasileiras”. Que cultura podre! Mas enfim, aqui no Brasil a coisa caminha pra mesma esquizofrenia estética. A velhice - ter rugas e cabelos brancos - não é aceita. Eu quero é ficar velhinho e ver como eu serei velhinho. Que mal há nisso? Por que é feio? Feio são as velhas plastificadas, esticadas. Todos vão passar a vida buscando coisas supérfluas. A cultura marca os parâmetros: o bonito, o bom, o saboroso. É preciso ter para poder ser. Um bando de gente sem nada na cabeça.

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      21 Sep 2010

      O agente de saúde iluminado

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      Ontem à tarde, Buda veio me visitar em forma de agente da Sucam. Daqueles que jogam pozinhos pra acabar com a dengue. Pra acabar com a larva do mosquito, o Aedes Aegypt. Tá bem, logo de cara não dava pra perceber que ele era o Buda. A não ser pela estrutura roliça do ser, nada mais me adiantava o momento espiritual latente. A descrição física do sujeito parecerá pra você nada além das mais retrógradas. O figurinista do Buda podia ter caprichado mais na caracterização do chefe. Ele, o iluminado, usava uns óculos fundos de garrafa saídos de um seriado dos anos 70. Sim, na aparição Buda era míope. E tinha um baita cecê. Buda pediu para entrar. Eu com sacola de supermercado na mão e um galão d’água vazio de 20 litros debaixo do outro braço, seguia o cara pela sala. De repente, ele para e diz com uma voz calma e tom instrutivo:

      _ Ah, você tem um jardinzinho esotérico.

      _ Ah é, tenho, respondi sem dar moral.      

      _ Você sabe como surgiu a lenda desses jardins?

      _ Não.

       A partir daí foi como se eu ouvisse aquela voz do programa Rá-Tim-Bum falando: “Senta que lá vem a história!”. Eu não sentei. Então de pé ouvi uma história sobre um jardineiro, um escultor, um fazendeiro e um mestre. Os três primeiros queriam uma vaga como discípulo. Assim o agente da Sucam no meio de uma tarde calorenta me contava:

      _ O mestre disse: tragam me um presente. Um presente de vida.

      Nessa hora eu já duvidava da realidade. Entrara numa dimensão da fantasia ou do absurdo. Tive vontade de rir. Mas fiquei mesmo embasbacado. E ele continuava:

      _ O fazendeiro trouxe um medalhão de ouro. O escultor um vaso muito valioso e o jardineiro um jardim, muito bonito. O mestre em sua sabedoria negou os presentes materiais e preferiu o jardim. Um bem comum a todos, onde há paz, tranquilidade e natureza. Onde todos podem se regozijar. Assim, criou-se a lenda dos pequenos jardins, como este seu.

      Soltei o ar dos meus pulmões. Desde o início da conversa com o agente de saúde iluminado eu interrompi funções vitais. Eu estava em choque. Ou então era o torpor pelo cecê do Budão. Voltando à realidade, soltei um comentário leve e conclusivo ao mesmo tempo:

      _ Ah, essa filosofia oriental, que coisa né? 

      Mas foi como se eu dissesse: “conta mais, conta mais!”

      E ele contou:

      _ Você conhece a fábula do monge e do samurai? Não? Bom, era assim. Há muito tempo existia um samurai. Ele participava de batalhas e guerras, matava pessoas. Certa vez surgiu na cidade um monge, muito sábio.

      Aí, nesse momento da história, minha consciência ocidental criada e entupida com comédias da Sessão da Tarde, seriados da Sony e Os Trapalhões não aguentou e mostrou a cara. Em um lapso, eu movi levemente o canto da minha boca. Eu tava rindo. Mas me contive. Ali na minha frente, a história começava a fazer algum sentido.

      _ Então, o samurai queria saber o que era o bem e o mal. O mestre lhe respondeu com palavras rudes, o humilhando. Então o samurai ficou com raiva e quis até matar o mestre. Este lhe disse: “Isso é o mal. Você está no inferno agora”. Então, o mestre mudou para palavras amigas, gentis, calmas e trouxe paz ao espírito do samurai. Disse-lhe: “Isso é o bem. Você está no céu agora”.

      Pronto. Ponto final. Tinha acabado a história e eu tava ali com o galão de 20 litros debaixo do braço, já suado. Como se não tivesse aprendido nada, repeti:

      _ Essa filosofia oriental, sabedoria pura.

       Tudo ok. Eu não tinha nenhum foco da dengue em casa. Mas antes de sair, o Buda ainda me disse:

      _ Atenção, tome cuidado com vasilhames. Não deixe água empoçada. Qualquer coisa ligue pra gente.

      E lá se foi o agente de saúde Buda. Lá se foi ele jogando pozinho pra matar mosquito.

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    Jornalista por formação. Músico por vocação. Escritor por obsessão. Sou do mundo, sou Minas Gerais, sou Flamengo e tenho uma nêga chamada Marina.

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